Manuela Fonseca: Barreiro Terra-Património

A minha geração cultivou-se num Barreiro, Grande Património a espaço aberto, o dos ofícios, afectos e valores que, cedo e em boa hora, lhe foram inculcados, como refere uma conterrânea ilustre e minha coetânea, a Dr.ª Carla Marina Mendes:

“Provavelmente alguns de nós desconhecemos, ainda, a importância da nossa herança, que não é constituída por palácios, museus, igrejas (…).

As nossas casas, as nossas ruas, as nossas fábricas fazem parte de um todo. Os nossos tesouros são incontáveis – ferramentas de caldeireiros, carpinteiros, pintores, chumbeiros, corticeiros…” (1)

Éramos duas famílias alargadas, a Horta (Rodrigues) e a Fonseca, unidas por ideais comuns: os laços biológicos e de sentimentos, a Liberdade, o Associativismo, o Desporto, o Estudo, o Trabalho e, em parte dela, o Cristianismo. Passava bastante tempo com cada uma delas porque o meu pai, maquinista, achava que a mãe e eu não devíamos estar sozinhas nas muitas ausências dele.

(Na área desportiva, ainda hoje olho, embevecida, para o emblema que sobrou do equipamento da primeira classe de ginástica infantil, a que frequentei no novel Ginásio-Sede do Barreirense, em 1957.

Paro, estupefacta, à frente do buraco do que foi o “Manuel de Melo”, certamente potenciador de insalubridade, mostrada a qualquer transeunte que passe perto dele ou a quem o veja dos prédios próximos; um nojo em vez do propalado condomínio que tornaria o Barreiro mais bonito e feliz.

Um nojo a conspurcar a memória das partidas de futebol ali disputadas.)

A maior parte das refeições funcionava como instrumento para se dar e trocar informações acerca do que era necessário na ajuda aos presos políticos.

Na casa Fonseca, o patriarca, o avô, apresentava-me o exemplo do lendário irmão Adelino, que, só depois do 25 de Abril, pôde ser homenageado, ele e a maioria a título póstumo, no desaparecido Mercado do Povo, em Lisboa, bem como todos os outros que passaram pela humilhação, sofrimento, dor e condições absolutamente desumanas do Campo de Concentração do Tarrafal, em ofensa aos povos de Portugal e Cabo Verde.

(A propósito: onde estão os pequenos paralelepípedos nele expostos, com a identificação de cada tarrafalista?)

Em outros horários, o antigo subchefe de Depósito ligava a telefonia, em som baixo, para ouvirmos, disfarçadamente, a BBC (“Vamos tomar atenção ao comunicado!”, esta última palavra que lhe ficara da Segunda Grande Guerra e da voz de Fernando Pessa, através de Londres) e, mesmo às escondidas, a Rádio Moscovo.

Entre os tios, dois dos irmãos da minha mãe, Bárbara e Manuel, sintonizavam “Os Companheiros da Alegria”, programa no qual Igrejas Caeiro, uma espécie de parente de todos os antifascistas, ultrapassava, com inteligência e finura, a vergonhosa censura e trazia-nos palavras de esperança em dias, futuros, que seriam livres – tudo me era explicado ao calor, aconchegante, da braseira.

A avó paterna e a filha, a tia Conceição, e a prima-irmã mais velha e uma das madrinhas, Maria Lucília Horta, eram católicas e, com elas, percebi que aquele Cristo que me davam a conhecer sofrera por nós para sermos felizes e não coarctados nas nossas vidas, com Lhe tinham feito, de forma tão ignóbil.

Foi e é esta minha primeira Cultura, foi e é este o meu primeiro Património.

De que tenho passado o possível aos meus filhos que os interiorizam, mantêm esta preciosidade, a herança que lhes deixo.

As narrativas de actos, individuais e colectivos, contra o maldito regime formavam-me e formavam-nos: a bandeira comunista hasteada na chaminé do Palácio de Coimbra, em época carnavalesca – “o melhor” é acabar-se com o Carnaval, não se lembre o País, tantas décadas depois, de copiar o acto tão arrojado, então (colocaram uma grande bandeira vermelha, decorada com foice e martelo, no alto da chaminé do Bairro Ferroviário),
nas fábricas e outras empresas, em Terças-feiras de Entrudo, com ênfase para as que não pagam os salários aos trabalhadores e cujos representantes, mandões ou lambe-botas, mentirosos, dizem aos órgãos de comunicação social, mormente se a canais televisivos, estar tudo em dia ou quase, quanto aos salários dos trabalhadores.

Sim, “acabem com o Carnaval”, não fique o País encarnado e as crianças vão, admiradas, observar o que ainda está na minha retina sem nunca a ter visto, por ser bem anterior ao meu nascimento, a Bandeira Vermelha que dá hoje nome ao velho Palácio de Coimbra.

Cor vermelha, digo-o sob a forma de metáfora – apesar dos desmandos e crimes do estalinismo, que a atraiçoou –, usada como pretexto para denegrir os comunistas: assisti, abismada, há pouco, pela televisão, num debate em S. Bento, a um qualquer, por acaso ministro (sim, com minúscula inicial, que mais não merece), na falta de argumentos, ideias e obra, assacar as maiores barbaridades às ideias ao PCP (do PCP?), em arrazoado comandado por falta de sensibilidade e consideração pela vida laboral mais esforçada a que, parece-me, já nem o fim da ditadura se atrevia.

Não havia, Carla Marina, palácios ou castelos para admirar e ter saudades, póstumas, da Monarquia.

Pois não; nem sentia a falta deles, tal a luta pelo quotidiano ao meu lado, tanto para me instruir, o pai para me ensinar a ler, expressiva e
precocemente, a madrinha Maria Lucília para me ensinar Francês – ela que tanto se esforçou para se formar nesta Língua – fez-me amá-la para sempre, eu bem miúda – e em Inglês.

(E, coisas da vida, a quem fico a dever uma ida a Paris, um dos nossos amores, em projecto que não realizámos.)

Bem perto, a Sede do Barreirense, com tantos livros. No extremo sul da rua, a Dr. António José de Almeida, onde vivíamos todos, bem como alguns primos, ia admirar o movimento dos trabalhadores dos Caminhos-de-ferro, apressados, nas entradas das oito e treze horas e na saída do meio-dia, para rápido almoço, a buzina a ditar-lhes os passos.

Houve uma pessoa da minha geração que me marcou: a Josélia Simões, dois anos mais velha do que eu, a três portas de distância, autora textual, encenadora, directora de cena, encarregada do guarda-roupa, gestora dos dois tostões pedidos – dados com prazer – a cada vizinho para as representações, no pátio (o “patinho”) do de rés-do-chão que partilhava com a Maria João (minha madrinha de casamento, a Dr.ª Maria João Gomes) e, lá em cima, nas águas-furtadas do mesmo prédio, a Sr.ª Ana e o marido, Vinagre.

A “Zelinha” tem uma veia cómica, plurifacetada, que não pôde ser ganha-pão (ignoro, até, se o teria querido) mas continua a manter-se nos diálogos, sempre fluentes, entre amigos, pessoalmente ou através da Internet.

Josélia: o meu primeiro património teatral e cinéfilo, ela que tomou a responsabilidade de ir com várias de nós a pé, claro, até ao Cinema-Ginásio para, na iniciação à 7.ª Arte, haver uma choradeira com “Branca de Neve”: a aflição com a desventura da menina, a raiva à bruxa, o fascínio pelos sete amigos, o encantamento pelo príncipe, o entusiasmo pelo fim, desejado, da história.

Em síntese: o encontro com Walt Disney e o Cinema.

(O que gostávamos de ti, Josélia, em sentimento transversal a gerações, antítese do que expressávamos pelo legionário que, falecido bem novo, só teve os seus no funeral, lembras-te?

Obrigada: ainda por cima, tinhas o teu pai a conduzir as viaturas dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste, o Tio Jorge, um dos nossos heróis!

A “Nené”, a tua única irmã, ria-se, embevecida, com quase tudo o que dizias e fazias.)

Em relação a um Museu do Cinema, havia e há, para nosso orgulho, o Cineclube do Barreiro, o do desenvolvimento de conhecimentos na semântica e morfossintaxe do Cinema, bem como dos seus intervenientes.

Atentemos em Jorge Silva Mello:

A razão da minha ida é uma sessão no Cineclube do Barreiro e eu, todo contente: (…) gosto do Barreiro, estou curioso. (Ainda há cineclubes? quem são? Quem, neste Barreiro, vai a estas sessões – só jovens? Ou só velhos militantes? não foi aqui que, em sessão semiclandestina, vi o Potemkine?) (2) (3)

Jorge Silva Melo, homem de Cinema, Teatro, Literatura, um dos Sábios do “Século Passado” e deste, que tanto tem dado ao país, captou, como pessoa invulgar, a nossa riqueza – onde os inteligentes tanto vêem, outros nada percebem e, se calhar, gostariam de encontrar aqui um património edificado mais apelativo.

Paciência: o Mundo muda devagar.

A propósito da Arte aflorada, como teria sido interessante a Cidade do Cinema no Barreiro!

Promoveria, tenho a certeza disso, a criação de postos de trabalho, pelas vias directa e indirecta, a dádiva do próprio Barreiro, ele próprio, protagonista de trabalhos já realizados, a potencialização de recursos do Instituto Politécnico de Setúbal e da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro para a criação de cursos, ligados às novas actividades.

(Sonho? Não: organize-se ideias e projectos, negoceie-se com investidores, sérios e interessados na transformação do nosso quotidiano e a referida Cidade será parte do Barreiro destes tempos e de vindouros.)

Se já não encontro as fragatas e os fragateiros, continuo a comer o peixe frito como eles, quando não estou em lugar público. E vejo, dentro de mim, aqueles homens de mãos calejadas que encontrava, em cada manhã, ao apanhar o comboio para Setúbal.

Se da CP quase nada sobra, se o Depósito de Máquinas do Barreiro é algo que me parece tão longínquo como a boneca “Fi-Fi” que para lá levava quando acompanhava o meu pai, se o desactivado quartel dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste e a EMEF têm, apesar das vicissitudes, trazido a expressão artística à Cidade, com excelente assistência, deveremos, em conjunto, tentar impedir o seu desaparecimento.

Dá dó ver a vandalização, visível do exterior da anterior casa de uma parte dos nossos Soldados da Paz.

Alfredo da Silva tem a dignidade que, segundo muitos Barreirenses, merecerá.

O mausoléu do homem que quis a última morada na antiga vila onde, bem ou mal para os trabalhadores, investiu, maioritariamente, já não se envergonhará da estátua do empresário, entre os modificados Parque Catarina Eufémia e Mercado Municipal 1.º de Maio, quiçá agora melhor colocada do que no pedestal, sempre degradado, que a sustentava.

O industrial está mais perto de nós sem aqueles degraus e, finalmente, reconhecido, em termos oficiais, depois de uma curiosa iniciativa da JSD, ao colocar uma lápide, junto à escultura, a mencioná-lo.

Há dezenas de conterrâneos, que, na noite comemorativa do 25 de Abril, bebem, com naturalidade, a sua ginjinha ao pé do “Tio Alfredo”, sem que isso lhes / me pareça desrespeitoso. Como se o empresário fosse um deles e, como acabei de dizer, assim o denominam.

(Um pormenor: ponham os copos usados nos recipientes próprios; preservam o ambiente do Barreiro e, já agora, a organização de Alfredo da Silva e do Barreiro.)

Pergunto-me e respondo a mim própria, de acordo com convicções pessoais:

– Era capitalista e explorador dos trabalhadores, sobretudo dos menos qualificados?

– Sim, era; o meu sogro, proveniente da Beira Alta, viveu, pobre e precariamente, nas instalações da CUF, até ao casamento.

Acrescento que a minha sogra foi alvo de cuidados, pouco vulgares na época, quando esperava os filhos porque beneficiou de serviços médicos.

E o meu marido, para além desses, auferiu dos sociais e escolares, postos à disposição dos herdeiros do pessoal – a Escola Secundária Alfredo da Silva bem o reconheceu, em 1997, na passagem dos cinquenta anos da sua fundação.

Claro que continuamos por saber as doenças que a poluição provocou a gerações de Barreirenses e não o esquece(re)mos.

Filha de ferroviário, viajava bastante de comboio e reparava na aflição das pessoas que não eram da nossa região quando aqui chegavam e ficavam desesperadas com os fumos que as altas bocarras lançavam, sem precauções.

E chegava a não ver as três equipas, em jogos no “Manuel de Melo”, tapadas por agressiva e malcheirosa nuvem gigante, como uma vez, por certo a pior, com o Beira-Mar – dentro das quatro linhas gritava-se que nada se via.

E se a roupa voltava, amiúde, a ser lavada, isso não acontecia com os nossos pulmões.

Das fábricas de cortiça estão na minha recordação / memória os medonhos incêndios, as mangueiras, o risco, e as sirenes dos competentes, generosos e atarefados bombeiros (lá ia o Tio Jorge a conduzir) que os minoravam.

(Bem, se o passado não se muda, o futuro é moldado por nós.)

Neste Barreiro hodierno, a Quimiparque é eficaz ao acolher variados elementos do sector de serviços, preserva o que pôde, pode e deve da antiga CUF – e apresenta-nos o excelente Museu Industrial, Aula Aberta de um período, alargado, da História da Economia do País e do Barreiro.

Mudam o tempo e as organizações: o Moinho do Jim é, agora, um feliz local de descoberta de gerações, pólo de interesses e actividades que nos prestigiam e, fundamentalmente, motivam os mais jovens.

Este é o actual Barreiro, nova cidade ainda à procura de caminhos que terá de buscar, na preservação do património, material e simbólico, em aliança com a criação de bens físicos, imprescindíveis para a fixação dos mais novos, no desígnio da construção da ponte (sim, há melhor do que a TTT) entre ontem e amanhã.

Há meses, em Setembro de 2011, vi, em Albufeira, no Museu Municipal de Arqueologia, uma Exposição, notável, de trabalhos do Arquitecto Cabeça Padrão que, com a sua mestria, várias vezes serviu a linda terra algarvia.

Os jovens conhecem o seu nome?

Ou o de Manuel Cabanas, Republicano e Socialista destemido, agora homenageado pela Cooperativa Operária Barreirense, “Os Corticeiros”?

E tantas dezenas de outras figuras: o que fizeram? A que se dedicaram? Como combateram contra a ditadura?

De que forma podem, ainda, guiar-nos?

Dois locais, a Escola Conde Ferreira, agora na candidatura REPARA (4) e a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, cheia de prestígio, dentro e fora de portas, nesta Aldeia Global, poderiam aglutinar fábricas de ideias e projectos que, no conhecimento dos antigos, cidadãos e actividades, nos trouxessem, tão depressa quanto possível, a inovação.

Liguemos o Barreiro de ontem e hoje ao de amanhã.

Apostemos numa unidade hoteleira e, muito seriamente, no Turismo – há aqui muito para mostrar e estudar.

Solicitemos ao conterrâneo João Alberto Gouveia – empresário notável, herdeiro de património de honra e finança em comunhão, que incansavelmente, desenvolve – parte da Unilogos para a (sua) Cidade.

E, com o que poderá ser gizado e concretizado, continuemos, orgulhosos, nesta Terra-Património.

Manuela Fonseca *

Artigo publicado na revista Objectiva em 4-7-2012

Referências

(1) Carla Marina Mendes, [Prefácio a] Ana Nunes de Almeida, A Fábrica e a Família: Famílias Operárias no Barreiro”. Câmara Municipal do Barreiro, col. Estudos e Documentos Sobre a História Local, p. 5, 1993, 311 pp..

(2) Jorge Silva Melo, Século Passado, “IX, A história destas derrotas”, “Património são os vivos”. Lisboa, Livros Cotovia, p. 465, 2007, 534 [+27] pp..

(3) Palavra Potemkine a negrito devido ao itálico, nela utilizado, na obra atrás referida.

(4) Cf. Jornal do Barreiro (Ano 61, n.º 3150) de 10 de Fevereiro de 2012, p. 3.